Mais Mimimilho

Amantes da boa cerveja,

eis que uma velha discussão no mercado cervejeiro voltou a ganhar as mídias sociais nos últimos dias: a utilização de milho como adjunto nas cervejas.

Como tem acontecido muito nesse país – ou melhor, nesse planeta – tudo tem virado um “Fla-Flu”, uma discussão generalizada com dois lados tecendo críticas e trocando agressões, muitas vezes com profunda falta de respeito.

Eu, particularmente, acho que cada um é de dono de si, e tem o direito de fazer suas próprias escolhas – e isso inclui o direito de produzir e vender cervejas que levam milho em sua composição, pelo lado do produtor, e de comprar e consumir cervejas que levem milho, pelo lado do consumidor.

Ponto. Simples assim.

Esse assunto ressurgiu, mais uma vez (parece o Jason) quando a Wäls divulgou nas redes socias que está elaborando uma nova receita de IPA, a HopCorn IPA, que levará em sua composição 15% de milho. Tecnicamente falando, ela levará High Maltose, uma espécie de xarope de glicose de milho, que possui alta fermentabilidade e ajuda a aumentar o teor alcoólico da cerveja.

Bora fazer uma IPA ?
Bora fazer uma IPA ?

Como é uma IPA, e espera-se que o astro numa cerveja desse estilo seja sempre o lúpulo, eles utilizarão Amarillo, Columbus e Cascade, e a cerveja ainda passará por dry hop de Centennial.

Bastou a divulgação dessa notícia que o tema, mais uma vez, começou a gerar um grande Mimimi, com inúmeras críticas (e piadas) com relação à utilização do milho nessa nova receita.

Pois bem !

IPA sempre fou um estilo muito controverso, pois devido à sua popularidade sempre surgem variações – como as Black IPA ou as Rye IPA, por exemplo – e a nova revisão do BJCP, um guia de estilos bastante difundido no mundo, trouxe uma inovação: o estilo 21B está classificado como “Specialty IPA”, e já elenca as principais variantes encontradas com mais facilidade mundo afora. Esse guia destaca as seguintes variantes de IPA: Belgian IPA, Black IPA, Brown IPA, Red IPA, Rye IPA e White IPA.

Entretanto, a maior inovação dessa nova divisão, na minha visão, foi a flexibilização deixada pelos autores do guia, que já sugerem que novas variantes de IPA poderão ser acrescentadas no futuro, como por exemplo uma St. Patrick’s Day Green IPA, citada no próprio guia BJCP como um exemplo de candidata futura a ser promovida a uma Specialty IPA catalogada no BJCP, e de como utilizar essa categoria “guarda-chuva” para abranger novas variedades do estilo IPA com o passar do tempo.

Isto posto, vamos à análise da Rye IPA, um estilo bastante difundido, tendo sido produzido até mesmo aqui em São Paulo, pela cervejaria Urbana uns tempos atrás.

Segundo o BJCP, o estilo Rye IPA pode ser produzido com malte Pale Ale como base e de 15% a 20% de centeio.

Aí eu deixo a pergunta: por que essa discriminação com o milho? Por que 15% de centeio pode, e 15% de milho não pode?

E a reposta a essa pergunta pode passar, a meu ver, por uma série de conjecturas.

Será que é pelo fato da grande indústria cervejeira ter, desde sempre, não só usado, mas sim abusado do milho, não em receitas mais nobres como IPAs, mas em cervejas de massa como as Light Lager de mercado? Será que essa massificação acabou, por assim dizer, “denegrindo” a imagem do pobre vegetal?

Não é nenhum segredo que, no final das contas, qualquer empresa visa o lucro. O objetivo de qualquer organização é o lucro. E não é segredo pra ninguém que a introdução do milho (e o arroz?) foi sim para baixar os custos de produção. Foi sim pra conseguir atingir um teor alcoólico satisfatório com o mínimo de custo possível, porém sempre respeitando a legislação, ou seja, colocando o mínimo de malte possível para poder chamar aquela bebida de cerveja.

Aquela conversa de que o paladar brasileiro pede uma cerveja leve é balela, conversa pra boi dormir. Cerveja com corpo leve pode ser feita só com malte, poderíamos ter uma Kölsch, por exemplo. A suposta preferência dos brasileiros por cervejas mais leves acaba sendo uma desculpa para o abuso desses adjuntos que, além de conferir menos corpo à cerveja, ainda barateiam, e muito, o custo de produção.

Foram eles próprios que, ao priorizar o lucro em detrimento da qualidade, acabaram por tornar o pobre do milho o vilão da história.

Não é o milho o vilão. O vilão é o ser humano. É a ganância.

Por fim, achei bastante ousada a atitude da Wäls – ou melhor, da Ambev – de mexer num vespeiro ao produzir uma IPA com milho, pois amantes de IPA, em geral, são bastante apaixonados por sua cerveja, e muitas vezes essa paixão acaba se sobreponto à razão.

De minha parte, experimentarei a cerveja com bastante curiosidade. O que vale, no final das contas, é ter uma boa cerveja para degustar. Se ela for sensorialmente boa, tiver um preço razoável, for uma boa IPA e agradável de se beber, que me importa se levou 15% de milho em sua composição?

Aliás, está sendo bastante divulgado o percentual de milho – 15% – nessa cerveja !

Portanto, pra finalizar, fica aqui um desafio à Ambev: se, ao adquirir a Wäls, e ao lançar uma IPA com milho em sua fórmula, eles não se constrangem em divulgar o percentual de milho utilizado, por que não fazer o mesmo com TODAS as suas cervejas?

Como eu disse, respeito todas as opiniões, e acho que no mercado tem espaço para todos.

Mas uma das críticas que tenho às grandes cervejarias é a falta de transparência: como já disse, não vejo problema nenhum na produção e comercialização de cervejas que levem quanto milho for em sua fórmula. Mas por que raios isso não é divulgado, de maneira transparente, no rótulo de cada cerveja?

Querem fazer, que façam ! Dou todo o apoio ! Mas que seja de uma maneira transparente e honesta com seus clientes !

Vai, Ambev ! Faça isso ! Inove ! Coloque os percentuais de malte e de adjuntos (especificando cada um deles) nos seus rótulos !

Com certeza ganhariam muitos pontos no conceito de muita gente por aí ! Eu sou um deles ! Transparência e respeito com os clientes nunca é demais ! E se essa atitude fosse espontânea, e não decorrente de alguma lei obrigando a fazer isso, a atitude seria ainda mais louvável !

Bons goles a todos, seja cerveja com milho ou puro malte

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